sexta-feira, 29 de novembro de 2013
O que aprendi sobre o amor desde o nascimento de minha filha.
terça-feira, 14 de maio de 2013
Três tigres tristes
In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?
And what shoulder and what art
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand and what dread feet?
What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears,
And water’d heaven with their tears,
Did He smile His work to see?
Did He who made the lamb make thee?
Em que céu se foi forjar
o fogo do teu olhar?
Em que asas veio a chama?
Que mão colheu esta flama?
Que força fez retorcer
em nervos todo teu ser?
E o som do teu coração
de aço, que cor, que ação?
Teu cérebro, quem o malha?
Que martelo, que fornalha o moldou?
Que mão, que garra seu terror mortal amarra?
Quando as lanças das estrelas cortaram os céus,
ao vê-las, quem as fez sorriu talvez?
Quem fez o cordeiro te fez?
sexta-feira, 22 de março de 2013
Notas de Aula: Ciência e subjetividade - a evolução do pensamento científico
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Filosofia Joyceana - Experimento de fluxo da consciência sobre uma teoria da mente
O filósofo australiano David Chalmers cunhou o termo "the hard problem". Australiano, parece tão estranho um filósofo australiano, e cheque-o no Google images, com seu cabelo de roqueiro anos 80 e jaqueta de couro, eu posso vê-lo saindo da universidade em uma harley, ou matutando fazendo filosofia de poltrona em uma poltrona impregnada de cheiro de cânhamo queimado, não ajuda nada quando temos que acreditar em sua espécie de dualismo, mas enfim. Hard problem é afirmar que resolver todos os problemas funcionais não resolve o problema da consciência, seja, descrever um modelo detalhado e neuroanatomicofisiologicofuncionalmente perfeito ainda assim não daria conta de explicar como é ser eu. Pode explicar tudo o que eu faço, mas não como é ser eu. Da mesma forma que conhecer exata e perfeitamente o funcionamento sensorial de um morcego não me ajudará jamais a saber como é ser um morcego. Ou como a pobre Mary, provavelmente a segunda Mary fictícia mais comentada do mundo, a fisiologista de cores que sabe tudo o que há para saber sobre a física e a neurofisiologia da percepção de cores mas foi criada desde a infância em um laboratório completamente em branco e preto e quando exposta ao vermelho pela primeira vez, será que ela aprende algo novo? A experiência de como é ver vermelho será algo novo, ou ela já sabe tudo o que há para saber sobre o vermelho? Se houver algo novo, que raios? The hard problem. Chalmers acha que saber como é ser algo ("qualia" é o nome que os filósofos dão para saber como é ser algo), é algo. Existe. É diferente da soma das funções. Diz que defende um certo dualismo, "property dualism", como em: existe uma só coisa mas uma propriedade dessa coisa é matéria e o mundo físico e outra é mente e consciência. Se não fosse a cabeleira... Mas quem surpreendentemente defende um "property dualism" e não tem cabeleira do Scorpions é Cristof Koch, e ele colaborou com Watson Crick que não se chamava Watson, pobre Francis, mas é aquele Crick mesmo, o do Watson, como dizem, você só pode se dedicar academicamente ao problema da consciência se você tiver cabelos brancos e um prêmio Nobel. Mas Crick e Koch colaboraram durante décadas como talvez os principais fisicalistas, investigadores do mínimo substrato neural da consciência, procurando a pineal cartesiana dos tempos modernos (Descartes achava que a glândula pineal fazia a ponte entre a mente pensamento e o cérebro matéria), mas de modo a explicar tudo materialmente é claro. Materialismo, vamos lá! Mas aí me vem Koch em seu último livro dizer que dualismo rocks, mesmo sem cabeleira. Segundo ele a consciência é uma propriedade da matéria, como carga elétrica. Ok, nem é tão ruim, quer dizer, o que significa dizer que elétron tem spin? Que quarks têm cor? Nada, além de dizer: atribuamos uma propriedade x a esta partícula para diferenciar um estado 1 de outro -1 e olha só! agora nosso modelo matemático funciona. Claro, o modelo funcionar quer dizer ser extremamente preditivo em um nível estatisticamente embasbacante então isso deve representar algo sobre o mundo real, físico, afinal, o modelo é perfeito e tal, mas ainda assim, quarks não têm cor. E talvez matéria não tenha consciência. Mas se o modelo que usa essa propriedade fosse preditivo de alguma coisa, aí iríamos achar que toda matéria tem consciência como achamos que tem carga. Koch acha que é, usando a teoria de informação integrada de Giulio Tononi, possível estabelecer um modelo matemático preditivo do grau de consciência de um sistema, mas acho que ele ainda não provou nada, até porque, o sistema de informação com mais capacidade de integração que conhecemos sem contar os cérebros de animais desenvolvidos seria a internet e, segundo Koch, ele acha que ela ainda não é consciente, ainda. E também, se fosse, como diabos saberíamos? Eu não sei se ninguém mais é consciente além de mim, a menos que eu considere consciente tudo o que se comporta como se fosse, quando visto de um ponto de vista externo, o meu, e aí não haveria o Hard Problem porque então bastaria explicar todo esse comportamento "como se fosse" e eu não precisaria achar que saber como é ser eu tenha qualquer relevância para o problema da consciência. E se eu puder fazer isso, aí eu fico com o materialismo mesmo, muito obrigado. Mas Koch acha que existe algo que é como é ser um cachorro, como é ser um morcego, e talvez, como é ser a internet, e, em princípio, como é ser qualquer coisa material porque matéria tem essa propriedade, bastando estar organizada em um sistema integrado de informações para saber como é ser matéria. É um "property dualism" e um panpsiquismo, é praticamente Spinoza back with a vengeance à luz da física moderna.
Qualquer matéria é informação, é verdade, não é? Quer dizer, qualquer diminuição de incerteza, determinação, diminuição de entropia, é definição de informação, na verdade isso é mesmo definição de informação para alguém, que não lembro quem, mas é uma definição formal. Faz sentido, uma partícula informa que existe, no mínimo, mas dizem que informa até se tem spin -1 ou 1, ou se tem cor, ou se é uma corda ou um laço (string vs loop theories), e toda matéria é diminuição de incerteza, de entropia, é um estado qualquer minimamente organizado que pode ser irreversivelmente desfeito. Havendo só energia em fluxo, à máxima velocidade, não há matéria, não há informação, não há espaço e não há tempo. Matéria é desaceleração, é resistência a movimento, F=ma, é paragem (Bergson), é dobra, reentrância, ondulação, é uma ranhura no fluxo incessante de energia do universo e se essa coisinha puder perdurar um pouquinho, só um pouco, um instante, umas centenas de milhõezinhos de anos se tanto, só o tempo suficiente para se organizar em um sistema que integre suas informações, que retenha um pouco de sua história memória, talvez ela possa saber como é que é ser ela.
Mas o hard problem não é o meu maior problema, eu consigo imaginar sem dificuldades uma mente materialista que saiba tudo o que é possível saber sobre como é ser ela sem que isso seja uma outra coisa além da soma de todas as funções do cérebro materialista que a abriga. O que me intriga é essa regressão infinita a alguma instância imaterial que é quem toma decisões. Eu penso meus pensamentos, que são só matéria em movimento dentro do meu cérebro, mas quem é que sabe que eu penso? Quem entende o que eu penso, decide o que eu penso e formula o que eu digo ou escrevo? Todo o processo pelo qual eu penso em algo enquanto estou escrevendo acontece enquanto meu cérebro cuida de todos os movimentos materiais de informações entre neurônios para que eu escreva, meu córtex frontal elabora um plano motor, meu giro pré-central o executa, em perfeita sincronia com receptores proprioceptivos nos meus dedos, mãos, braços, monitorados pelo cerebelo, toda essa orquestra acontece porque eu pensei no que eu queria escrever. Mas um pensamento não pode mover meu cérebro, então um pensamento não pode começar tudo isso, a menos que um pensamento seja só movimento no meu cérebro porque um movimento de matéria pode gerar outro movimento de matéria. Mas se movimento gera movimento, e todo pensamento é matéria, quem começou o primeiro pensamento de uma certa cadeia? Quem foi que decidiu mover meu braço? Eu pensei e ele moveu, mas o pensamento que deu a ordem tem que ser matéria, e antes dele matéria, e então foi um movimento (Bergson chamava de vibração), então foi uma vibração no meu cérebro que começou tudo, e então não fui eu, a menos que eu seja só uma vibração no meu cérebro. Ficar só com o materialismo, que parece tão mais óbvio, requer mudanças radicais em como eu penso como é que é ser eu. Seria preciso imaginar que meu cérebro "pensa", o tempo todo, sem parar, um pandemônio (palavra de fato usada por Dennett) de pensamentos entendidos como vibrações, em resposta aos milhões de vibrações da matéria do mundo físico afetando meus sentidos, vibrando meu cérebro e gerando movimentos, um mar de vibrações que vão competir, moduladas por contexto e mecanismos de adaptação ao meio orientados a algum objetivo todo ele mecanicamente biologicamente determinado, todo esse maremoto afunilado e transformado em uma espécie de fluxo, meu fluxo, o fluxo que sou eu, produto da Joycean Machine. Fluxo de consciência. Parece que volta para o tal fluxo de energia incessantemente propagado desde o Big Bang, desacelerado nessa vibração que é matéria, que quer manter-se, resistir à tendência entrópica de se dissolver, quer continuar existindo e impressionando-se por outras vibrações, companheiras nessa condição de absoluta aberração estatística do universo que é todo estado anti-entrópico, como todo ser vivo. Perceber que somos fluxo é a base para uma teoria da mente, mas também de uma ética. Sistematizá-la, porém, não é trabalho para um exercício de fluxo.
domingo, 9 de setembro de 2012
Educação e a Ética da Virtude
quinta-feira, 26 de julho de 2012
Castigos, palmadas, e um pouco de moralismo
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Como educar seus filhos?
Mas, já que me arrisquei, vamos lá. Está na hora de dar a cara a tapa e responder sem rodeios à pergunta que ficou tão insatisfatoriamente mal respondida na reportagem da Veja. Como educar seu filho?
Resposta: Educando-se. Eduque-se primeiro, e você vai educar bem seu filho.
Ufa! Muito bem, uma vez que isso está fora do caminho, reposta curta e grossa dada, vamos então conversar a respeito. Para começar, o que significa educar seu filho? Vai ser difícil falarmos sobre isso sem saber se estamos realmente preocupados com a mesma coisa. Há várias interpretações para "educar seu filho", e eu não pretendo ser exaustivo, mas vou citar algumas coisas que acredito que façam parte desse pacote:
1. Ensinar o que é certo e o que é errado;
2. Ensinar o que é bom e o que é mau;
3. Criá-lo de forma a ser uma pessoa feliz.
Antes de prosseguir, acho que vale a pena dedicar algumas palavras à diferença entre os dois primeiros ítens, que nem sempre fica clara de imediato. Por exemplo, ao descobrir que seu filho adolescente anda fumando maconha, isso merece uma conversa sobre o que é certo e errado, ou uma conversa sobre o que é bom e mau, ou as duas? Essa é uma questão encarada de forma tão diferente por tantas pessoas, que fica difícil tomar qualquer postura como base para começar. Mas, talvez, possamos começar dizendo que, pelo menos até que a lei mude, fumar maconha é errado, sem muita discussão, ficando então a ser definido em uma conversa franca se isso é ou não bom. Mas desse ponto de partida já começam a surgir dúvidas: Só porque a lei diz que não pode, disso se pode concluir que é errado? É bom para uma pessoa aceitar como certo aquilo que a lei diz que é certo, ou é melhor contestar? E essa resposta muda se a pessoa for um adulto ou um adolescente?
Sem responder a essas perguntas, permitam-me voltar aos três ítens que propus como constituintes de uma boa educação e perguntar: você sabe a reposta para essas coisas que devemos ensinar a nossos filhos? Você sabe a diferença entre bom e mau, e entre certo e errado, e sabe como ser uma pessoa feliz?
Percebe? Eduque-se primeiro, para poder educar bem seu filho. Se você nunca parar para se perguntar, para você e para a sua vida, sobre essas questões, dificilmente vai conseguir passar para seus filhos a educação que gostaria.
Centenas, ou milhares, de livros foram escritos sobre educação de filhos, e sobre essas questões de certo, bom e feliz. Por isso, não se preocupe, não vou tentar resolver essas questões nesse texto, que eu tenho certeza que você espera que seja uma leitura rápida. Mas pretendo ao menos desviar o foco da questão, que na reportagem ficou nas dicas genéricas, para o que considero realmente o cerne desse tema: não dá para educar bem um filho, sem ter clareza dos seus valores.
Vivemos uma era muito interessante, em que nunca na história, talvez, a sociedade humana foi tão complexa e tão complexamente modificada em tão pouco tempo. São tempos que já foram classificados por tantos nomes, e todos eles corretos: hedonismo, globalização, rapidez e fluidez, rejeição às tradições, consumismo, pulverização, imediatismo. Tudo isso faz parte, mesmo, do nosso mundo moderno. Estamos desacostumados a pensar sobre questões morais, como bom e mau, porque estamos o tempo todo em contato com novidades, com outras culturas, com ideais de liberdade e aceitação das diferenças. Desenvolvemos uma espécie de "consciência global" que facilmente detecta vilões estereotipados, mas que raramente nos pede para desenvolvermos uma profunda "consciência interna" de certo e errado. Às vezes achamos que temos uma idéia muito clara de nossos valores, mas só porque seguimos algo que aprendemos, e não sabemos mais ensinar a uma criança, ou adolescente, que nos conteste, as razões desses valores. Temos, muito mais claramente do que uma noção de bom e mau, uma noção de normal. Queremos viver a vida que todos estão vivendo e que nos é apresentada como boa. Queremos seguir nossas vidas e ser felizes, sem maiores preocupações. Mas aí vemos que "as crianças estão cada vez mais impossíveis", "ninguém respeita mais o professor", "as drogas estão em todo lugar e podem pegar seu filho a qualquer momento", "todos estão transando como coelhos", e achamos que isso, também, passou a ser normal. Nos desesperamos pois tudo o que é normal é tudo o que queremos, e o normal tem sido assustador nesse "mundo louco" de hoje em dia. O mundo não está louco. Loucos estão os que acham que basta ir levando a vida para ser "normal e feliz".
Aprender a desenvolver uma noção ética e moral que nos torne prontos para a vida na sociedade moderna é tarefa dificílima, mas fundamental para educar nossos filhos. Infelizmente, além de difícil também não é suficiente. Devemos também conhecer ao menos um pouco de psicologia infantil. Temos que saber como nossos filhos pensam, lidam com sentimentos e relacionam-se com adultos e com seus pares, ao longo das várias fases do desenvolvimento pela qual ele passa. Não adianta esperar de uma criança de 8 anos que tenha a capacidade de compreender questões abstratas como bom e mau da mesma forma que um adolescente de 17 anos consegue. E também não adianta esperar de um adolescente de 17 anos, que engana tão bem ao parecer que pensa e compreende o mundo da mesma forma que um adulto, que tenha o mesmo discernimento de um, porque não é verdade que eles pensem de forma parecida. Além de saber o quê ensinar, temos que saber também como ensinar, e o que nossos filhos serão capazes de aprender em cada fase.
Isso não é fácil, e fica mais difícil ainda pelo fato de que nossos conhecimentos sobre o desenvolvimento infantil ficam desatualizados tão rápido quando tecnologia de telefonia móvel. As gerações "digitais" são mais diferentes de nós do que os hippies eram de seus pais nos anos 60, e nós não temos nem idéia do impacto que isso ainda vai ter no mundo. Mas não acho que isso deva nos desanimar. Na verdade, sinto que é um momento excitante, cheio de novidades, e povoado por criaturinhas que vão nos surpreender de formas absolutamente inimagináveis. Só precisamos, é claro, e mais do que nunca, estar preparados.
Para isso, não tem segredo, nem receita. Nem caminho fácil, e nem difícil. Só tem um jeito: ter conhecimento, amor, dedicação, e conhecer seu filho. Saber como ele é, e como pode ser. Saber o que você quer, e o que ele pode. Estar junto, aberto, seguro, e determinado. A quê? A ensiná-lo com firmeza ou leniência? Com rigidez ou com liberdade? Com limites claros ou com parâmetros construídos? Com fé ou com razão?
Só você pode saber. A questão é que você TEM que saber.
Poxa! Mas não eu não sou filósofo nem psicólogo. Não dá pra educar bem meu filho sem ter que estudar tudo isso, sem me reeducar, sem gastar tanto tempo e tanto tutano?
Claro que dá. É só seguir receita de bolo.