quinta-feira, 26 de julho de 2012

Castigos, palmadas, e um pouco de moralismo

Nos últimos dias vi-me novamente empenhado em um debate com minha esposa sobre educação. Dessa vez não fomos inspirados por nenhuma reportagem, mas enfim, como pais de primeira viagem que somos, o assunto vive recorrendo. Desta vez o tema era o castigo físico como medida educativa.
Eu e minha mulher conversamos muito, tentando explorar o que nós mesmos pensamos sobre o assunto. Para ela, foi fácil afirmar que gostaria de educar nossa filha sem palmadas. Mas ela humildemente admitiu que nossas experiências até agora, com uma bebê de um ano, não nos permitem prever as situações mais extremas com que poderemos nos deparar, e exatamente como reagiríamos. Por exemplo, se uma criança de dois a três anos de repente sai correndo para o meio da rua. Nessa idade uma criança não é muito capaz de compreender a gravidade do que fez só por uma conversa. Haveria outra alternativa tão eficaz quanto uma palmada para deixar claro que ela nunca mais deveria fazer aquilo?

O caminho que percorremos para chegar a uma possível resposta mostrou-se uma boa oportunidade para exemplificar os dois instrumentos que considerei essenciais aos pais para uma boa educação no meu último texto: (1) Clareza dos seus valores morais e (2) Noções de desenvolvimento psicossocial infantil.

Comecemos então pela questão de valores. O que você pensa sobre a palmada? É certo, bom, ou ao menos justificável bater nos filhos no contexto educativo? Notem que aqui não estamos falando de agressão física gratuita, nem gravemente violenta, mas da famosa palmada educativa. E também não vale uma reposta do tipo "depende da situação", por que isso é óbvio, uma vez que ninguém advoga palmadas a torto e a direito por qualquer coisa. A questão é: existe alguma justificativa moral para a palmada em alguma situação?

Eu vou tentar chegar a uma resposta, mas será, é claro, a minha reposta. O objetivo deste texto, porém, não é dar receita de bolo, mas mostrar o valioso instrumento que é desenvolver a clareza de seus valores morais.

Para começar a pensar sobre valores, sugiro que façamos uma divisão bem básica entre duas visões éticas:
A primeira, conhecida por ética utilitarista, consiste na idéia de que nosso julgamento sobre o valor moral de uma ação depende das consequências dela. Ou seja, a palmada poderia ser justificada se ela resultar em algo bom. Quando perguntamos se a agressão física pode ou não resultar em um trauma para a criança, estamos pensando segundo essa ética utilitarista. Estamos pressupondo que se a palmada não trouxer consequências negativas maiores do que o benefício de ensinar um comportamento desejável, então ela pode ser empregada.
A outra forma básica de se pensar sobre valores é a ética deontológica. O nome difícil esconde uma idéia simples: trata-se de atrelar o valor moral de uma ação ao motivo dela, não importando a consequência. Ou, melhor dizendo, de julgar o caráter de uma ação por um princípio moral, uma espécie de regra sobre o que é certo ou errado independente do resultado desta ação. Este tipo de pensamento anda meio fora de moda. No mundo moderno olhamos com desconfiança para a idéia de um gabarito moral, de um princípio ético básico, porque vivemos em um mundo pluralista aberto a diferentes interpretações de valores.

E você, o que acha? Ao decidir se vale ou não lançar mão da palmada na educação de seus filhos, você acha que o faz por uma questão utilitarista (se faz mais bem ou mais mal), ou por uma questão de princípios?

As discussões que vemos a respeito desse tema costumam levar sempre em conta uma ótica utilitarista. Discute-se se a palmada vai causar traumas, se vai ensinar o uso da violência, ou se é, afinal, eficaz. Para alguns pais, porém, pode ser que não importe se é eficaz ou se traumatiza. Para alguns isso pode ser algo considerado simplesmente errado, por um valor moral.
Vivemos em uma sociedade avessa à discussão nestes termos. Achamos que apelar para um princípio moral pode parecer desrespeitoso, intrusivo. Em um debate público, seja em uma conversa entre amigos, fórum de internet ou programa de televisão, queremos sempre evitar parecer moralistas, e por isso imperam as discussões utilitaristas. Tem vantagem? É eficaz? Faz mal?

Talvez seja bom que isso funcione assim nos debate públicos, mas com certeza não é bom que isso funcione assim na sua casa, na sua vida pessoal, e na educação dos seus filhos. Para você e para sua família, deve valer aquilo que lhe faz sentido, e você deve considerar essas questões da forma que lhe parecer a mais correta. Se for a utilitarista, leve os dados sobre as consequências em conta e decida como educar. Agora, se você pensa de forma deontológica, leve as discussões públicas em conta, é claro, mas não tenha medo de validar os seus próprios princípios morais, e viver e educar seus filhos de acordo com eles.

Como eu resolvi a questão para mim? Bom, entre essas duas formas básicas de se pensar sobre valores há inúmeros tons de cinza, e ainda há outra formas, entre as quais se encontra a que eu mais me identifico. Mas, para tentar me ater a essas duas, eu aproximaria a minha forma de pensar à ética deontológica, pois há um certo princípio básico que norteia minhas decisões morais, na minha vida e na educação de minha filha. Esse princípio vem atrelado a uma idéia, ou ideal, de ser humano: acho que o ser humano é tão mais feliz, mais completo, e em certo sentido vive uma vida tão melhor quanto mais potência de ação ele tem. Acho que a palmada ensina que algo não deve ser feito em hipótese nenhuma, a ponto de justificar o uso de violência para coibir, efetivamente traçando um claro limite no repertório de ações da criança. Acho que outras formas de educar podem ensinar à criança que ela não deve decidir por certas atitudes, fornecendo parâmetros de ação, e não limites.

É claro que eu quero que minha filha aprenda a jamais correr para o meio da rua. O ponto é que eu vejo uma diferença entre uma criança, ou qualquer ser humano, que sinta que uma ação lhe é absolutamente proibida, e um ser humano que sinta que escolhe não realizar uma certa ação absolutamente. Veja que não se trata de uma diferença utilitarista, uma vez que o resultado de qualquer intervenção eficaz nesse caso é o mesmo: a criança não correrá para a rua. A diferença é que, por princípio, eu atribuo um valor moral mais alto a uma conduta que respeita ao máximo a potência de ação de cada indivíduo, que a uma que diminua essa potência.

Essa distinção entre limites e parâmetros pode parecer uma sutileza desprezível. Mas, para mim, a cada momento ao longo de toda a sua existência, quando um ser humano sente que uma ação está além de seus limites ele se entristece e se diminui como pessoa. E a cada momento que um ser humano decide que uma ação está descartada por não corresponder aos parâmetros que ele aprendeu a traçar para si mesmo como um ser moral, ele se reafirma, e é mais feliz. Por isso, para mim, essa distinção é fundamental. Para mim. Para você pode ser diferente, e isso não é nenhum problema. Como eu já disse antes, só você pode saber o que é importante na educação de seu filho, mas você tem que saber.

Agora, se eu continuar essa discussão assumindo que, por princípio, não vamos empregar a palmada, então como ensinar para uma criança de 3 anos, por exemplo, que ela não deve correr para a rua? Aqui entramos no segundo instrumento: as noções de desenvolvimento psicossocial infantil.

É comum ouvirmos que crianças, principalmente as pequenas, precisam de limites. A idéia é que enquanto elas ainda não têm a capacidade de desenvolver um senso moral autônomo, ou o discernimento para se comprometer com algumas condutas, a única coisa que pode fazê-las aprender o que é errado é isto ser apresentado como absolutamente proibido. E isso está certo em grande medida. Não dá para conversar com uma criança de três anos, como é possível fazer com um adolescente, para mostrar que uma conduta é possível, mas não correta. Crianças menores devem aprender simplesmente que algo não deve ser feito, e pronto. Será que ainda assim vale a distinção entre limite e parâmetro que usei para condenar a palmada? Se a criança é tão pequena que ainda não dá para apelar ao seu senso moral, então um castigo mais duro e a imposição de um limite, mesmo que violento, não é inevitável? Ou ainda, melhor dizendo, mesmo que a palmada não seja inevitável, mas será que ela é realmente diferente de qualquer outra forma de impor um limite, já que ele terá que ser coercivo de qualquer forma?

O que nos permite chegar a uma resposta a essa pergunta é esse segundo instrumento, o desenvolvimento infantil. Quando estudamos crianças, e como elas se desenvolvem, descobrimos coisas fascinantes. Descobrimos, por exemplo, que crianças têm, sim, um senso de certo e errado, um senso moral. Ele só é muito diferente, é claro, do que o de um adulto, mas ele está lá. Se um adulto pode decidir sobre o que é certo ou errado com base em complexos e abstratos parâmetros morais, e um adolescente pode ser ensinado a pensar moralmente por si próprio, uma criança de qualquer idade também pode, desde que compreendamos qual é a "linguagem moral" de que ela é capaz.

Há diversas teorias sobre o desenvolvimento infantil, e eu não tenho pudores em me apropriar daquela que me parece mais útil em determinado momento. Nesse caso, gostaria de usar a teoria de Erik Erikson, um estudioso de orientação psicanalítica que expandiu grandemente o trabalho de Freud sobre o tema. Erikson sugeriu que o desenvolvimento humano possa ser dividido em oito fases, e que cada uma delas se caracterizaria por nossos esforços para resolver um grande conflito. Por exemplo, para uma criança entre um ano e meio e três anos, o conflito é entre autonomia e vergonha. Ela sente que é capaz de fazer mais coisas sozinhas, aprendeu a andar por sua própria conta e quer explorar o mundo. O que a limita é o medo de se envergonhar ao fazer algo errado e decepcionar os pais. Nesse embrião de senso moral, bom é descobrir uma nova ação bem recebida, e mal é passar vergonha, por uma reprovação dos pais.

Ou seja, quem acha que pode conversar sem precisar bater em seu filho adolescente para educá-lo, também pode fazê-lo com seu filho de três anos. Basta usar o que ele entende por bom e mal. Ele pode desde muito cedo passar pela experiência de decidir por si mesmo que não deve correr para a rua, mas ele não decidirá corretamente porque é perigoso, ou porque é errado, mas porque seus pais se decepcionarão com ele. Ele também decidirá corretamente se aprender que o resultado dessa ação é levar uma palmada, mas aí ele não passará pela experiência de que foi ele que decidiu não fazer isso com base no seu senso moral. Passará apenas pela experiência de que não teve opção.

Essa idéia pode parecer meio estranha. Ao invés de palmadas, garantir que ele sinta vergonha do que fez? Será que isso é realmente melhor? Explorar a vergonha não pode ser ainda mais traumático, ou talvez até mais errado, do que uma palmadinha?

Bem, em primeiro lugar, a palmada também é muito vexatória. Mas mais do que isso, embora pareça estranho, evocar essa sensação de vergonha não é diferente de evocar qualquer outro parâmetro que se queira para justificar a moralidade de uma conduta. Ao longo do desenvolvimento vamos aprendendo a agregar outros parâmetros além da vergonha, como culpa, solidariedade, amor, respeito, justiça, e nosso senso moral vai ficando mais complexo. A própria vergonha nunca deixa de fazer parte dos parâmetros que nos movem agir da forma que achamos certa. Para uma criança de três anos, porém, ela é, talvez, o único parâmetro acessível. E ainda, se pensarmos bem, isso é o que acontece nessa mesma fase no treinamento de toalete. Você pode bater o papo cabeça que quiser para convencer seu filho a fazer suas necessidades na cadeirinha, mas a verdade é que a motivação que ele tem para obedecer é a vontade de corresponder à expectativa que você tem dele, e não se envergonhar ao decepcioná-lo.

É claro que explorar a vergonha não significa humilhar a criança. Trocar a agressão física pela verbal não resolve grande coisa. Uma criança nessa fase deve ter confiança suficiente no vinculo com os pais para compreender que decepcioná-los é muito ruim a ponto de moldar suas condutas, mas não a ponto de ameaçar esse vínculo. Isso, se continuarmos a usar a teoria de Erikson, é possível porque a fase anterior, do nascimento aos 18 meses, é marcada pelo conflito confiança básica versus desconfiança. Ou seja, garantindo que essa primeira fase seja bem resolvida, e que a criança se sinta confiante, amada e protegida pelos pais, ela pode depois ser exposta a um conflito moral como sentir-se envergonhada por uma má conduta sem que isso se torne traumático. É incrível, mas uma criança de dois anos, bem amada e bem cuidada, já é capaz de começar a desenvolver uma percepção de si mesma como um ser moral autônomo, algo que muitos adultos parecem incapazes de fazer.

Esse é o valor, inestimável, de uma boa educação.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Como educar seus filhos?

Na última semana a revista Veja São Paulo publicou uma matéria sobre como educar filhos. Eu, como pai de uma menininha de um ano, li com muito interesse. Como psiquiatra que trabalha há anos com adolescentes, li com desconfiança. Por melhores intenções que se tenha, esse é um tema espinhoso para escrever a respeito, e mesmo as sumidades dessa área estão longe de serem unanimidade. Minha mulher, também mãe de primeira viagem dessa nossa pequena, participa ativamente de um blog e grupo de discussão sobre a maternidade, o excelente Conselhos de Mãe. Ela se decepcionou com a reportagem, e disse que a impressão geral das mães do grupo foi a de que a revista perdeu uma grande oportunidade de abordar mais profundamente o tema. A reportagem parece um manual de receitas de bolo, uma coleção de dicas genéricas. Em defesa da reportagem, reitero, é um tema espinhoso, difícil de acertar. E agora que me meti aqui a escrever a respeito, fico cada vez mais convencido disso.

Mas, já que me arrisquei, vamos lá. Está na hora de dar a cara a tapa e responder sem rodeios à pergunta que ficou tão insatisfatoriamente mal respondida na reportagem da Veja. Como educar seu filho?

Resposta: Educando-se. Eduque-se primeiro, e você vai educar bem seu filho.

Ufa! Muito bem, uma vez que isso está fora do caminho, reposta curta e grossa dada, vamos então conversar a respeito. Para começar, o que significa educar seu filho? Vai ser difícil falarmos sobre isso sem saber se estamos realmente preocupados com a mesma coisa. Há várias interpretações para "educar seu filho", e eu não pretendo ser exaustivo, mas vou citar algumas coisas que acredito que façam parte desse pacote:
1. Ensinar o que é certo e o que é errado;
2. Ensinar o que é bom e o que é mau;
3. Criá-lo de forma a ser uma pessoa feliz.

Antes de prosseguir, acho que vale a pena dedicar algumas palavras à diferença entre os dois primeiros ítens, que nem sempre fica clara de imediato. Por exemplo, ao descobrir que seu filho adolescente anda fumando maconha, isso merece uma conversa sobre o que é certo e errado, ou uma conversa sobre o que é bom e mau, ou as duas? Essa é uma questão encarada de forma tão diferente por tantas pessoas, que fica difícil tomar qualquer postura como base para começar. Mas, talvez, possamos começar dizendo que, pelo menos até que a lei mude, fumar maconha é errado, sem muita discussão, ficando então a ser definido em uma conversa franca se isso é ou não bom. Mas desse ponto de partida já começam a surgir dúvidas: Só porque a lei diz que não pode, disso se pode concluir que é errado? É bom para uma pessoa aceitar como certo aquilo que a lei diz que é certo, ou é melhor contestar? E essa resposta muda se a pessoa for um adulto ou um adolescente?

Sem responder a essas perguntas, permitam-me voltar aos três ítens que propus como constituintes de uma boa educação e perguntar: você sabe a reposta para essas coisas que devemos ensinar a nossos filhos? Você sabe a diferença entre bom e mau, e entre certo e errado, e sabe como ser uma pessoa feliz?

Percebe? Eduque-se primeiro, para poder educar bem seu filho. Se você nunca parar para se perguntar, para você e para a sua vida, sobre essas questões, dificilmente vai conseguir passar para seus filhos a educação que gostaria.

Centenas, ou milhares, de livros foram escritos sobre educação de filhos, e sobre essas questões de certo, bom e feliz. Por isso, não se preocupe, não vou tentar resolver essas questões nesse texto, que eu tenho certeza que você espera que seja uma leitura rápida. Mas pretendo ao menos desviar o foco da questão, que na reportagem ficou nas dicas genéricas, para o que considero realmente o cerne desse tema: não dá para educar bem um filho, sem ter clareza dos seus valores.

Vivemos uma era muito interessante, em que nunca na história, talvez, a sociedade humana foi tão complexa e tão complexamente modificada em tão pouco tempo. São tempos que já foram classificados por tantos nomes, e todos eles corretos: hedonismo, globalização, rapidez e fluidez, rejeição às tradições, consumismo, pulverização, imediatismo. Tudo isso faz parte, mesmo, do nosso mundo moderno. Estamos desacostumados a pensar sobre questões morais, como bom e mau, porque estamos o tempo todo em contato com novidades, com outras culturas, com ideais de liberdade e aceitação das diferenças. Desenvolvemos uma espécie de "consciência global" que facilmente detecta vilões estereotipados, mas que raramente nos pede para desenvolvermos uma profunda "consciência interna" de certo e errado. Às vezes achamos que temos uma idéia muito clara de nossos valores, mas só porque seguimos algo que aprendemos, e não sabemos mais ensinar a uma criança, ou adolescente, que nos conteste, as razões desses valores. Temos, muito mais claramente do que uma noção de bom e mau, uma noção de normal. Queremos viver a vida que todos estão vivendo e que nos é apresentada como boa. Queremos seguir nossas vidas e ser felizes, sem maiores preocupações. Mas aí vemos que "as crianças estão cada vez mais impossíveis", "ninguém respeita mais o professor", "as drogas estão em todo lugar e podem pegar seu filho a qualquer momento", "todos estão transando como coelhos", e achamos que isso, também, passou a ser normal. Nos desesperamos pois tudo o que é normal é tudo o que queremos, e o normal tem sido assustador nesse "mundo louco" de hoje em dia. O mundo não está louco. Loucos estão os que acham que basta ir levando a vida para ser "normal e feliz".

Aprender a desenvolver uma noção ética e moral que nos torne prontos para a vida na sociedade moderna é tarefa dificílima, mas fundamental para educar nossos filhos. Infelizmente, além de difícil também não é suficiente. Devemos também conhecer ao menos um pouco de psicologia infantil. Temos que saber como nossos filhos pensam, lidam com sentimentos e relacionam-se com adultos e com seus pares, ao longo das várias fases do desenvolvimento pela qual ele passa. Não adianta esperar de uma criança de 8 anos que tenha a capacidade de compreender questões abstratas como bom e mau da mesma forma que um adolescente de 17 anos consegue. E também não adianta esperar de um adolescente de 17 anos, que engana tão bem ao parecer que pensa e compreende o mundo da mesma forma que um adulto, que tenha o mesmo discernimento de um, porque não é verdade que eles pensem de forma parecida. Além de saber o quê ensinar, temos que saber também como ensinar, e o que nossos filhos serão capazes de aprender em cada fase.

Isso não é fácil, e fica mais difícil ainda pelo fato de que nossos conhecimentos sobre o desenvolvimento infantil ficam desatualizados tão rápido quando tecnologia de telefonia móvel. As gerações "digitais" são mais diferentes de nós do que os hippies eram de seus pais nos anos 60, e nós não temos nem idéia do impacto que isso ainda vai ter no mundo. Mas não acho que isso deva nos desanimar. Na verdade, sinto que é um momento excitante, cheio de novidades, e povoado por criaturinhas que vão nos surpreender de formas absolutamente inimagináveis. Só precisamos, é claro, e mais do que nunca, estar preparados.

Para isso, não tem segredo, nem receita. Nem caminho fácil, e nem difícil. Só tem um jeito: ter conhecimento, amor, dedicação, e conhecer seu filho. Saber como ele é, e como pode ser. Saber o que você quer, e o que ele pode. Estar junto, aberto, seguro, e determinado. A quê? A ensiná-lo com firmeza ou leniência? Com rigidez ou com liberdade? Com limites claros ou com parâmetros construídos? Com fé ou com razão?
Só você pode saber. A questão é que você TEM que saber.


Poxa! Mas não eu não sou filósofo nem psicólogo. Não dá pra educar bem meu filho sem ter que estudar tudo isso, sem me reeducar, sem gastar tanto tempo e tanto tutano?

Claro que dá. É só seguir receita de bolo.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Fragmentos de Lafcadio Hearn

Descobri esse autor recentemente e quis compartilhar com os amigos, mas não achei nada, nada exceto um único conto traduzido em um blog, dele em português. Então resolvi fazer uma tradução do primeiro contato que tive com Hearn, o conto "fragments", abertura de seu "in Ghostly Japan". Encontrei esse livro em espanhol, mas não em português. Os poderes do Google podem ter me falhado miseravelmente, mas até onde eles alcançam, e até onde eu saiba, essa é a primeira tradução desse conto em nossa língua. Será possível? Gostaria de estar errado, para poder comparar e aprender, já que esta é resultado de um esforço, na melhor das hipóteses, amador.


Fragmentos


de Lafcadio Hearn



E foi na hora do pôr do sol que eles chegaram ao pé da montanha. Não havia sinal de vida naquele lugar, _ nem gota de água, nem traço de plantas, nem a sombra de um pássaro voando, _ nada além de desolação se abrindo para mais desolação. E o pico perdia-se nos céus.

Então disse o Bodhisattva a seu jovem acompanhante: _ “O que você pediu para ver será mostrado a você. Mas o lugar da Visão é longínquo; e o caminho é árido. Siga-me e não tema: a você dar-se-á forças”.

O crepúsculo assombrava-os enquanto escalavam. Não havia uma trilha batida, nem marca nenhuma de prévia passagem; e o caminho era todo sobre um interminável amontoado de fragmentos desarranjados que rolavam e viravam sob os pés. Às vezes um punhado deslocado cascateava ecoando estalidos ocos; _ às vezes a matéria cedia quando pisada, esfacelando como uma concha vazia... Estrelas pontuavam e tremeluziam; e a escuridão se aprofundava.

“Não tema, filho,” disse o Bodhisattva, guiando: “Perigo não há, mesmo que o caminho seja sombrio”.

Sob as estrelas eles escalaram, _ rápido, rápido, _ impulsionados por uma força sobre-humana. Altos nevoeiros atravessaram; e viam abaixo deles, expandindo conforme subiam, uma silenciosa inundação de nuvens, como a maré de um mar leitoso.

Hora após hora eles escalaram; _ e formas invisíveis cediam sob seus passos, despedaçando com ruídos surdos; _ e tênues chamas frias queimavam e morriam a cada esfacelamento.

E uma vez o jovem peregrino pôs a mão em algo macio que não era pedra, _ e o ergueu, _ e entreviu a face emaciada da morte.

“Não se demore assim, filho!” urgiu a voz do mentor; _ “o pico que devemos alcançar está muito longe!”

Escuridão adentro eles escalaram, _ e sentiam continuamente os suaves e estranhos esfacelamentos, _ e viam as chamas gélidas incandescerem e morrerem, _ até que as bordas da noite se acinzentaram, e as estrelas empalideceram, e o leste começou a florescer.

Ainda assim eles escalaram, _ rápido, rápido, _ impulsionados por uma força sobre-humana. Ao redor agora era o frio da morte, _ e um silêncio tremendo... Uma chama dourada alimentava no leste.

E então pela primeira vez aos olhos do peregrino as ladeiras se revelaram nuas; _ e um tremor se apoderou dele, _ e um horrível medo. Pois não havia nenhum chão, _ nem abaixo dele, nem ao redor dele, nem acima dele, _ exceto por um amontoado, monstruoso e desmedido, de crânios e fragmentos de crânios e pó de ossos, _ com um brilho aqui e ali de dentes partidos, como o brilho de pedaços de conchas na ressaca da maré.

“Não tema, filho!” gritou a voz do Bodhisattva; _ “Só os fortes de espírito chegarão ao local da Visão!”

Atrás deles o mundo sumira. Nada restava além das nuvens abaixo, do céu acima, e do amontoado de crânios entre os dois, _ subindo a perder de vista.

Então o Sol escalou com os alpinistas; e não havia calor em sua luz, mas um frio agudo como uma espada. E o horror da estupenda altura, e o pesadelo de estupenda profundidade, e o terror do silêncio, crescendo e crescendo, pesaram sobre o peregrino, e prenderam seus pés, _ e subitamente toda a força se esvaiu dele, e ele gemeu como um sonhador adormecido.

“Apresse-se, apresse-se, filho!” gritou o Bodhisattva: “o dia é breve, e o pico está muito longe”.

Mas o peregrino gemeu, _ “Eu temo! Eu temo além das palavras! _ e toda força se esvaiu de mim!”

“A força voltará, filho,” assim respondeu o Bodhisattva... “Olhe agora abaixo de você e acima de você e ao redor de você e diga-me o que vê”.

“Eu não consigo,” gritou o peregrino, tremendo e agarrando-se, “eu não ouso olhar para baixo! À minha frente e ao meu redor não há nada além de crânios de homens.”

“E ainda assim, meu filho,” disse o Bodhisattva, rindo suavemente, _ “ainda assim você não sabe de que esta montanha é feita”.

O outro, tremendo, repetiu: _ “Eu temo!_ indizivelmente eu temo!... Não há nada além de crânios de homens!”

“Um montanha de crânios, sim,” respondeu o Bodhisattva. “Mas saiba, filho, que SÃO TODOS SEUS! Cada um deles foi alguma vez o ninho de seus sonhos, delírios e desejos. Nem mesmo um deles é o crânio de nenhum outro. Todos, _ todos sem exceção, _ foram seus, nas bilhões de suas vidas passadas”.

Epitáfio

Foi testemunha o travesseiro
Passou um momento no meu sonho
Passou o momento do meu sonho inteiro

Presenciou o jornaleiro
Passou um momento do meu dia
Passou o momento do meu dia inteiro

Viu o Grande Sinaleiro
Passou um momento em minha vida
Passou o momento de meu ser inteiro

Para quem ficou fui passageiro
Fui um momento de um sonho
Fui o sonho que sou eu inteiro.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Soneto da Paternidade

À toda minha atenção escaparia
O momento em que Helena fez-se inteira
Só faltou dizer-me: "Achou!". Quem diria
Foi dela a primeira brincadeira

Bebês fazem pouco, quase nada
Não te olham, não te riem, egoístas
Mas dessa linguagem muda, calada
Criam sonhos. Demônios. Artistas.

E uma grande obra ela produz insuspeita
Até quando de chorar se esvai
A cada sorriso, careta ou bocejo

Ou no rosto, em que bobo me vejo
Mesmo dormindo, serena, perfeita
Helena de mim faz um pai

domingo, 17 de abril de 2011

A vida refletida

“A vida irrefletida
não vale a pena ser vivida”


A frase é de um texto de Platão, a Apologia. Trata-se do discurso que Sócrates teria feito em seu próprio julgamento, no qual viria a ser condenado à morte por envenenamento. Sócrates costumava andar pelas praças de Atenas interrogando, perturbando, como uma mosca chata, convidando as pessoas a refletir, a questionar. O Sócrates que conhecemos através de Platão é um herói, quase sobre-humano, que levava a luz da razão a quem vivia na escuridão. Foi assim também que Sócrates me foi apresentado, em minha infância. Um pouco através de meu pai, um pouco por Monteiro Lobato (em “História do mundo para crianças”), eu conheci essa figura trágica que terminou morta por levar vida a uma manada de atenienses zumbis que viviam essa vida morna, morta, a tal vida irrefletida.


Hoje sou psicoterapeuta. Ou seja, ganho a vida ajudando as pessoas a entenderem melhor as suas próprias. E como alguém que segue essa máxima socrática, reflito ainda hoje sobre tudo, inclusive sobre esse trabalho de incitar a reflexão. Olhando para a minha própria história, encontro aquele garoto de olhos atentos que se acostumou a interrogar todo acontecimento, a buscar o mecanismo ou princípio por trás de cada evento. E vejo também o preço que essa atitude cobra. Esse preço, hoje para mim tão óbvio, não foi claramente apontado por Sócrates, mas é igualmente óbvio em sua história e sua filosofia.
O preço é o distanciamento do mundo. A morte de Sócrates é mostra disso, condenado pela própria sociedade para cuja excelência ele tanto contribuiu, pois havia dela se alienado por sua própria filosofia. Essa busca incessante da verdade, da razão, dos princípios, levou Sócrates e sua filosofia a buscarem um outro mundo, o mundo das idéias, e não esse mundo, o nosso mundo. Sujo, nebuloso e apaixonante mundo.


Para mim, justamente por ter vivido sempre sob esse imperativo de refletir sobre a vida, foi muito difícil perceber e admitir que paguei também esse preço. Sou normalmente interpretado como avoado, arrogante ou até mal educado, por estar sempre ensimesmado, sempre “em outro lugar”. Facilmente me irrito com o que considero ignorância, ou, pior ainda, quando me deparo com uma atitude cada vez mais freqüente, que é a defesa da ignorância. Às vezes tenho a impressão de estar cercado de zumbis. As pessoas parecem que escorregam vida abaixo, repetindo os mesmos padrões, reagindo impensadamente da forma mais cômoda possível. Qualquer pergunta sobre um porquê, sobre um sentimento, uma razão ou princípio, é recebida com surpresa e com um olhar perplexo e vazio. É fácil dizer que estou certo porque “a vida irrefletida não vale a pena ser vivida”, mas enquanto os zumbis vão vivendo suas vidas, eu e toda a tradição filosófica originada com Sócrates fomos nos distanciando do mundo, alienando-nos da vida.


Só recentemente, poucos anos, percebi com pungência que esse preço é alto demais. Decidi que precisava correr atrás dessa ligação direta com o mundo e com a vida, mas sem abandonar esse questionamento constante que hoje é parte integrante de mim. Viciado que sou na razão e na lógica, busquei nos mais diversos sistemas filosóficos alguma resposta a esse problema. Comecei a esboçar algumas saídas, com a ajuda principalmente de Nietzsche e Espinosa, que me permitissem uma maior atenção à vida mesma, ao mundo real, e às relações reais. Talvez seja possível um resgate das emoções, das experiências puras do mundo, sem essa intermediação da razão, ou ao menos sem que a razão necessariamente submeta todo o resto. Mas é tão difícil! Há algo no ser humano que é pura energia, pura ação, intenção. Pura vontade! Algo por trás e anterior à consciência de si mesmo, anterior à linguagem. E tenho tentado incessantemente ter alguma apreensão desse “algo”. Mas qualquer apreensão já é linguagem. Qualquer vivência direta da vontade e da potência da vida que me acometa é quase que imediatamente transformada e submetida à razão na medida mesmo em que tento percebê-la. Sigo buscando essa vida, que não pode ser irrefletida, pois não sou mais capaz de enxergar no escuro, mas que não me aliene, que não me cobre o mundo. Que não me cegue.


Há dois dias atrás minha primeira filha nasceu. Ela é fruto de tudo o que sou, e muito mais do que isso, é fruto de toda a vida que eu levei e de todas as vidas que tocaram a minha. Em igual medida, é fruto da Mari, a vida que mais me tocou e mais me transformou. É fruto de nossa união, de nosso amor. Essa relação maravilhosa é que me mantém ligado, conectado a uma vida real, ao mundo real. Essa vida que construímos juntos, e agora a nossa filhinha, são a minha religião. Minha ligação direta com a essência brilhante da vida, com essa força potente da existência que alguns colocam em outro mundo e chamam de deus, e eu coloco nesse mundo e não tenho nome que sirva. Esse “algo” que tanto busco.
Com minha filha no colo, fiz o que todo pai faria. Fiquei olhando para ela com cara de bobo. Ela ainda de olhinhos fechados, fazia carinhas, trejeitinhos de bebê. Aos poucos começou a tentar abrir os olhos, ensaiava enxergar alguma coisa, mas com a luz logo os fechava, fazendo careta. Tentei cobrir a luz com minha mão, virar para o lado, ela sempre tentando ver, mas desistindo. Aquele esforço me conquistou, como tudo o que ela faz. Fui até uma área menos iluminada, protegi seu rostinho com meu corpo, e olhei longamente para as pálpebras fechadas que me encaravam.
Ela abriu os olhos, piscando, testando, e olhou para mim no escuro. Rapidamente, por um ou dois segundos no máximo, ela olhou diretamente para mim. Depois ficou passeando o olhar, com sua visão extremamente míope de recém-nascida, por tudo e nada ao mesmo tempo. Foi um olhar que nada viu, um olhar sem compreensão. Um olhar que recusou a luz da razão e só funcionou nas sombras. Um primeiro olhar que nada estudou, interpretou ou aprendeu. Foi apenas um olhar que conseguiu ser.


Mas foi nos fugidios olhos cinzas azulados de minha filha
que finalmente vi
a vida refletida.